O que é cultura ballroom

Como o movimento nascido nos bairros pobres de NY se tornou um dos maiores movimento de resistência

Quem conhece a história da Cinderela sabe que a protagonista vive o seu sonho de se transformar por uma noite para ir ao baile. Na realidade, sonhos, como o americano, são realizados por poucos privilegiados que conseguem ter a vida aparentemente perfeita. As minorias, por sua vez, não têm sequer espaço para expressar sua voz. Essa divergência social fez com que nos subúrbios pobres dos anos 40 de Nova Iorque nascesse uma cultura chamada ballroom, que deu liberdade de expressão à negros, latinos, LGBTs e pobres. 

A cultura ballroom surgiu a partir dos bailes, nos quais as pessoas se juntavam em espaços nos guetos de Nova Iorque para se entreterem durante a madrugada. Promovidos por mulheres trans negras e latinas, nos bailes ocorriam os desfiles e performances de pessoas transvestidas. Cada desfile tinha uma categoria temática, em que as pessoas batalhavam para conseguir o troféu da noite.

A ballroom se fortaleceu da união de diferentes pessoas.

Com a chegada de mais pessoas, a ballroom cresceu e ganhou novas características. Por causa da diversidade crescente, as festas tornaram-se mais significativa à comunidade como um movimento de luta e resistência negra, LGBT+ e latina. A ballroom se fortaleceu da união de diferentes pessoas.

Segundo Lucas Syuga, um dos pioneiros da cena vogue em Goiânia e uma das Mothers da House of Atrois, essas celebrações começaram com uma ideia de entretenimento, e com o passar dos anos ganhou categorias de apresentações. “Hoje temos várias categorias e vários estilos, como o face, realness, runaway e drag performance. A ideia das festas era fazer com que as pessoas se sentissem pertencentes e pudessem ter um espaço para se identificarem, participarem e se expressarem”, pontua.

A cultura ballroom é uma cultura que nasceu formada por houses, onde pessoas eram acolhidas por grupos para participarem das apresentações, levando o nome das casas com o objetivo de ganhar troféus. No começo as casas serviam para abrigar pessoas em situação de rua ou vulnerabilidade social, e a relação dos integrantes era de uma família real. O documentário Paris is Burning mostra essa realidade. Com entrevistas das pessoas da cena novaiorquina, o longa mostra o cotidiano das minorias expulsas do convívio com suas famílias biológicas.

Lucas comenta que o contexto e significado da ballroom modificou-se ao longo dos anos. Nos anos 80 e 90 tinham um, e hoje com a presença da dança vogue houve uma ressignificação da cultura. Ele ainda acrescenta que a comunidade está preocupada com a coletividade e as ações de ajuda ao próximo, e busca discutir a problemática do país e da região. “O objetivo é fazer uma comunidade confortável para os LGBT+, negros, travestis e latinos, e ajudar o coletivo em cada uma de suas individualidades”, afirma. 

“A ballroom se configura de diferentes formas e em diferentes lugares. No Brasil, essa comunidade acolhe e passa a sensação de pertencimento. O pessoal do hip hop ou outras danças urbanas comentam: – é sempre bom andar com a galera do vogue, exatamente por causa desse sentimento de pertencimento que a comunidade oferece.“

Foto por Equipe Site Conceito

Expressão

A ball é composta por uma pista (onde os competidores duelam), mesa com jurados, e o público, que se aglomera ao redor da pista. Para cada categoria os competidores se vestem de acordo com o tema escolhido. A ball tem dois momentos: a apresentação individual, em que o competidor continua a caminhar ou leva o chope, o corte e é retirado da competição. Após o desfile individual acontecem as batalhas. A ball não é formada somente pelos jurados e competidores. O público é parte fundamental da cultura ballroom, pois está presente e somando ao movimento. 

A também Mother da House of Atrois de Goiânia, Flavys Atrois, diz que a proposta da ball não é só promover a batalha entre os integrantes das casas, mas servem para expor e mostrar a verdade individual. Essas festas foram pensadas para que as pessoas fossem abraçadas, para se sentirem à vontade e assim expressarem-se ao máximo.

A comunidade está preocupada com a coletividade e as ações de ajuda ao próximo

“Como se vc fosse naquele momento a cereja do bolo, independente da categoria. Nós usamos os nossos corpos como elemento urbano para nós portar perante a sociedade. Os bailes são esses lugares de acolhimento que você pode se vestir e se portar como quiser, sem máscaras, sem escamas, sem nada. É uma cultura muito rica e podemos nós conhecer corporalmente. Os bailes são o local para que as comunidades negras e LGBTI+ e simpatizantes deem apoio um ao outro. Você não precisa ser de uma comunidade para defender, basta respeitar e apoiar”, enfatiza Atrois.

Foto por Raposa/ Equipe Site Conceito

Para Flavys, estamos falando de uma cultura de resistência em um lugar totalmente militarizado e conservador.. “Não é sobre conservadorismo, é sobre vidas e pessoas que morrem, são massacradas, pisoteadas diariamente, reafirmando quem são. Nós da cena ballroom não estamos apenas para reafirmar enquanto ball, uma festa, estamos para reafirmar e apoiar os nossos diariamente. A ballroom sempre me dá mais um sopro de vida.”

Rodrigo Witch, mother da House of Witch, de Goiânia, ressalta que a ball é um espaço para a celebração da vida, da resistência, da expressão e dos corpos. 

Lá é o único lugar que eu posso expressar essa persona que eu sou

“Nós já sofremos toda essa opressão. Os bailes surgem de uma necessidade de se expressar dessa sociedade que te oprime. Para mim dançar ir em uma ball é usar uma roupa que eu não usaria na rua por medo. Percebo que entrei em um processo de silenciar o que eu sou e de não expressar a minha persona. Lá é o único lugar que eu posso expressar essa persona que eu sou. É um local de agregar conhecimento, contar sua história, se sentir seguro”, pontua Rodrigo, que diz que a cultura ballroom é um processo de aprendizado constante. 

De acordo com a Mother da House of Witch, a ballroom extrapolou o seu significado enquanto contexto histórico. “A cultura fala hoje sobre corpos marginalizados em contextos gerais, mas não podemos esquecer de onde ela surgiu, seu objetivo e o sua mensagem desde a origem. Rodrigo conta que a cultura foi se modificando com o tempo. Na década de 40 as mulheres não tinham lugar de fala e hoje a presença delas é de extrema relevância na cena”, explica. 

“Me perguntam se uma mulher cis e branca pode entrar nesse movimento. É claro que pode! É até bom para que ela consiga reconhecer os seus privilégios e aprender com os outros que não estão na mesma situação”, frisa Witch.

Foto por Raposa/ Equipe Site Conceito

Goiânia

Existem em Goiânia duas casas, a House of Atrois( liderada por três Mothers: Lucas Suyga, Flavys Atrois, e Gleyde Lopes) e a House of Witch (liderada pela Mother Rodrigo Witch). Aqui há também os chamados 007 – pessoas que são da cena mas não pertencem a nenhuma house-, e integrantes de houses de outras casas, como a House of Caliandra e a House of Olfenza, ambas de Brasília. 

Por mais que haja duas houses completamente diferentes na capital, todos as mothers vieram da house Hand’s Up, de Brasília, pioneira nacional da cena. 

Flavys Atrois comenta que em uma cidade que a cena está começando, nada mais esperto que as houses se manterem juntas. “Por sermos a pioneira, a nossa responsabilidade é propagar essa cena no estado de Goiás. O nosso contato é direto e reto, pois estamos organizando de forma articulada e orgânica, diferente de Brasília, que as coisas se confundem”, afirma.

Rodrigo Witch explica que a movimentação da cena goiana acontece através do voguenique, encontros realizados em parques para interação de membros das houses e da cena); treinos ao ar livre e as balls. “Eu acho que movimento mais a cena porque tenho mais privilégios. Tenho mais abertura, e reconheço isso, por isso procuro arrastar o resto da comunidade”, justifica.