O jogo da vida

O fato é que a maioria de nós viu ou viveu, de forma direta ou indireta, nesse sábado 23 de novembro, a vitória de uma nação futebolista

Existe no mundo poucas coisas que talvez posamos ver apenas uma vez, como os super astros passam perto da terra a cada longos intervalos de anos. No entanto, considerando afirmação melancólica “a vida é um sopro” e a constância de cada coisa individual, essa frequência fica cada vez ainda menor.

O fato é que a maioria de nós viu ou viveu, de forma direta ou indireta nesse sábado dia 23/11/2019 a vitória de uma nação futebolista. A carga pesada sendo aliviada em minutos de exaustivas batalhas travadas em torno de um objeto pequeno e redondo cheio de ar em um espaço gramado. O campo.

Acredito que trazer esse assunto a uma coluna pontual vai mudar a métrica da minha escrita, o fato é que não sou jornalista, nem mesmo jornalista esportivo – nem gosto de esportes – e muito menos jornalista cultura. Por transitar entre todos os meios posso afirmar que não sei bem o que sou, mesmo assim vamos falar do jogo. O jogo que eu não assisti. Não todo. A razão da escolha desse assunto ainda me é desconhecida. Não sei ao certo o que me fez arrepiar com a matéria do fantástico domingo à noite sobre o acontecido. Ou o que me fez pertencer um pouco mais ao futebol depois de gritar GOL – assim mesmo com letra maiúscula – quando o objeto redondo e cheio de ar ultrapassou um limite pre-estabelecido e marcado por grades e um protetor, o goleiro.

O que me faz ao certo justificar a publicação dessa matéria a um veículo de cultura, foi o motivo que encontrei na memória para convencer meu editor de não escrever outro texto. A minha lembrança para justificar o fato de um bar caro em um setor nobre estar lotado de pessoas que ocupavam – por não ter espaço dentro do bar – a rua com o conjunto das palavras “fenômeno” e “cultural” talvez tenha sido esse “fenômeno cultural”. Pode ter sido também o fato do Flamengo estar incluso na maioria dos livros e músicas que eu leio e escuto. Também é bem provável então que tenha sido as duas camisas do flamengo do meu pai secando no varal, vestidas em seu corpo, ocupando minha massa cinzenta com vermelho e preto. O conjunto desses fatores me despertou emoções, é isso que nós desperta.

A cultura aqui não marca presença no campo, mas nesse legado histórico que cada um de nós temos. O conjunto característico desse fenômeno – não o Gabigol. O futebol é teatro, ocupado por plateia, palco, espaço não tão diferente do nosso. Quem joga não é ator ao jogar, mas sim ao dar de se o que pode. A cultura transmitida de pai para filho em formato de almofada confeccionadas por artesões e vendidas em escala futebolística. Cultura em ocupar a rua, em cantar “sou flamengo e tenho uma nega chamada tereza”, de Maurício Manieri. Ou gritar GOL – assim mesmo com letra maiúscula.

O Flamengo de Manieri ganhou de novo, mesmo depois da derrota, que ainda não entendi bem, mas como diria Maria Ribeiro, “algumas vitórias valem mais que outras”. Perder o “Ninho do Urubu” foi parte do livro de lembranças que busquei para tentar entender o fato de um brasileiro com CPF no bolso e cabelo com gel gritar GOL – assim mesmo com letra maiúscula – e se arrepiar com matéria do Fantástico.

Os dois gols, os dois atos da peça, os dois lados da moeda, os… de todos nós sofrendo, mesmo eu sem saber sofrer por jogo assim, reconheço que o gol do River foi o incêndio no ninho. O choro sofrido e dolorido de um milhão de vermelhos e pretos, e ainda sim, continuar jogando é esperar com a certeza no peito o sentimento aliviado de ser campeão.

Como diria Maria Ribeiro… Essa valeu Fla.