Em busca da Felicidade

Estamos prontos para fazer o que for preciso? Joselindo mostra que isso é mais simples do que pensamos

Em uma tarde de quarta-feira, Joselindo Silva Correia Cruz chegou em casa. Era seis horas, mas isso não importa, finalmente ele estava em casa. Por mais que amasse sua vida de chefe de cozinha, ele nunca deu tanta importância aos seus uniformes, os dólmãs, que no final do dia estavam todos cheios de manchas. Ele sentia-se feliz, mas faltava algo.

Era como aquele 1% para chegar aos 100%. Não é algo que dê para explicar. Faltava aquilo.

Após chegar em casa, Joselindo colocou a bolsa com cadernos de anotações e chaves em cima do sofá e sentou-se. Tirou seus sapatos, já bastante desgastados, e pôs os pés em cima da mesinha de centro. Ele aguardava por essa sensação desde o começo do dia.

O cozinheiro morava sozinho há dois anos. Não tinha uma vida agitada ou amigos e familiares por perto. Será que era isso que lhe faltava? Talvez não. O chefe sempre preferiu ficar sozinho.

Ele pegou o controle e ligou a televisão. Um homem apresentava o jornal do início da noite, mas Joselindo estava cansado demais para dar atenção ao âncora que falava sobre mortes num bairro periférico. Ele trabalha muito para conseguir bancar uma casa em um bairro seguro, não precisava se preocupar com aquilo. Mas seria isso que faltava para os seus 100%? Um pouco de sensibilidade?

Não! Definitivamente não.

Ele conseguiu se estabilizar financeiramente, e não precisa se importar com mais ninguém além dele. Afinal, esse é o objetivo maior: os 99%. O jovem Joselindo já tinha casa, carro, um emprego fixo que o pagava muito bem. Se sensibilizar pelo próximo não era, e nem será, aquele 1%.

O chef olhou para a televisão e o homem alto que apresentava o jornal chamou os comerciais. Seus pés doloridos latejavam de dor e o obrigou a ver as propagandas. O seu corpo pedia um tempo para descansar depois de um longo e estressante dia de trabalho.

-Você sente que falta algo na sua vida? – um homem estilo galã de novela das nove usando uma blusa branca disse pela televisão – como se fosse aquele 1% que falta para os 100%?

Joselindo arregalou os olhos. Definitivamente era aquilo que lhe faltava!

-Conheça Felicidade! – O homem continuou empolgado.

-Pela felicidade, eu faço o que for preciso. – a televisão mostra uma mulher vestida com um belo vestido branco dos anos sessenta. Ela dizia suspirando, como se ela estivesse apaixonada e fizesse de tudo pela Felicidade.

A jovem moça mal terminou de falar e Joselindo apagou a televisão, pegou suas chaves em sua bolsa ao seu lado, calçou as suas chinelas que estavam embaixo do sofá, e saiu de seu apartamento.

Ele apertou várias vezes o botão do elevador. A impaciência lhe tomava conta. Dois minutos se passaram e o elevador nem se quer tinha saído do segundo andar. Mas esse imprevisto não iria deixar com que ele fosse em busca da Felicidade. Ele desceu os dezessete andares da escada de incêndio e foi a garagem.

Chegando lá, entrou no carro e deu partida. O portão da garagem se levantou e ele saiu. O trânsito das grandes cidades é um caos, mas não seria páreo para Joselindo. E então ele se arriscou por aquele caos de carro e foi em busca da Felicidade do outro lado da cidade.

Durante o seu trajeto ele encontrou semáforos em vermelho seguidos, cruzamentos engarrafados, pedestres atravessando a rua, mas ele sabia que todo seu esforço iria valer a pena.

Pela Felicidade se faz qualquer coisa!

Após duas horas atravessando a cidade. Joselindo achou a tal Felicidade, mas ainda não a tinha. Suas mãos tremia de impaciência para tê-la. Ele ansiava por isso. O cozinheiro saiu de seu carro, andou a passos longos até o supermercado e na sessão de sabão em pó, estava ali, Felicidade. O novo sabão em pó prometia tirar todas as manchas na primeira lavagem.

E então Joselindo voltou para sua casa e lavou seu dólmã com Felicidade. Parecia novo, aquele branco se parecia mais branco, as manchas sumiram na primeira lavagem. Parecia mágica.

Finalmente Joselindo se sentiu 100%.